“A DECISÃO DE ESQUECER JUSCELINO FOI POLÍTICA”, AVALIA PESQUISADOR

  Jorge Henrique Cartaxo destaca a grandeza de Juscelino Kubitschek para o país e para o DF em artigos publicados no Correio. Morto há 50 anos, em circunstâncias obscuras, o velório do ex-presidente foi tomado por brasilienses


Jorge Henrique Cartaxo, historiador e jornalista, é o entrevistado do CB.Poder dessa quarta-feira (19/8) - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

O historiador e jornalista Jorge Henrique Cartaxo participou do CB.Poder — parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília. O convidado comentou às jornalistas Adriana Bernardes e Mariana Niederauer sobre os artigos publicados no Correio e que ressaltam o legado do ex-presidente Juscelino Kubitschek, que morreu há 50 anos, após um acidente de carro, enquanto viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro. A primeira parte foi publicada na edição dessa quarta-feira (19/8), com o título Brasília, como poderei viver sem a tua companhia.

O que inspirou o título do artigo sobre a morte de JK?

Foi um verso da música Peixe vivo, que o Juscelino gostava tanto e todo mundo sabia disso. Quis retratar Brasília sem JK e ele sem a cidade, coisas que aconteceram em momentos distintos. A capital perde ele quando termina seu governo e vem toda uma mudança política. Juscelino perde a cidade por se afastar de tudo aquilo que ela significava, não somente do ponto de vista da estética, mas da nova civilização que veio com o desenvolvimentismo.

O legado de Juscelino é visto atualmente? Ainda o identificamos na Brasília de hoje?

Acho que isso se perdeu. A sensação que tenho, até como morador, é o distanciamento do significado, da importância e da beleza arquitetônica, por parte de muitos. As novas gerações não olham e nem falam mais da cidade como se falava até pouco tempo. No entanto, a memória é fundamental, pois, sem ela, não temos civilização e uma estrutura social. Creio que essa perda se deu por razões políticas. A decisão de esquecer Juscelino foi uma política tomada nesta cidade também. Em algum momento, as elites locais resolveram tirar ele da memória e lembrança.

Qual o maior desafio para resgatar essas histórias? O que te surpreendeu nesse processo?

Não tive dificuldades acadêmicas, porque tudo o que está escrito eu li em algum lugar. Não há nada que não tenha sido documentado por um historiador ou comissões da verdade. Apenas reuni de uma maneira que desse um significado para esse fato. O que me chamou atenção foi o roteiro dessa morte anunciada. Foram três fatos marcantes: a visita do Roberto Marinho ao Juscelino para informar a mobilização militar para eliminá-lo. Depois o boato de que ele teria morrido 15 dias antes da morte real. Por fim, por que JK teria ido de carro de São Paulo para o Rio de Janeiro. Temos muitas informações, mas ainda há uma zona cinzenta.

Como foi o relembrar o cortejo em homenagem a JK em Brasília?

Essa foi uma cena muito importante. Eu diria que a primeira cena pública pela redemocratização é o enterro do Juscelino. Não havia naquele momento uma associação política, mas a cena era essa. Houve uma grande comoção nacional. Os números são imprecisos, mas haviam cerca de 300 mil pessoas (nas cerimônias do velório). A população se apropriou de todo o processo.

Qual a importância do Estado brasileiro reconhecer que JK foi assassinado?

É uma justiça com a história e com a família. Porque a reparação é impossível. Agora, como alerta, como advertência e como mais uma cena dos erros graves que foi essa experiência política de 1964 até 1984, o período da ditadura militar. Ainda que tenha sido supostamente um agente do Estado, não se pode dizer que eles estavam a serviço do Estado, porque naquele momento tudo era muito dividido. O Geisel queria uma abertura política e, dentro do governo dele, tinha gente querendo derrubá-lo. Mas, que foi um atentado contra uma figura pública importante é pacífico. O que nós podemos dizer é que um cenário político criou esse crime, produziu e tem todos os indícios, mas parou aí.

É possível que as pessoas que vivem em Brasília entendam a importância da cidade?

Há um caminho para isso que é a cultura e a história. Nada se faz ou se consolida sem essas duas coisas, para o bem e para o mal. Paris é um exemplo interessante de uma cidade que se cultiva e se preserva com todas as suas virtudes e defeitos. Qualquer francês adora aquela cidade. Você não pode derrubar uma pedra ali que vira uma guerra. Em nosso caso, não vejo as instituições das cidades fazerem isso, as universidades, as instituições de cultura, a inteligência local. Não os vejo preocupados com essa lembrança.

O que o leitor pode esperar da próxima reportagem sobre JK?

Vamos chegar até a cena do enterro dele. Contar como é que foi todo o trajeto da Catedral até o cemitério. O que foi dito e o que aconteceu, é isso.

Confira a entrevista completa:

https://www.youtube.com/live/Rwa8Uh341lw?si=X7CD-heYltDi-_6K




FONTE: Correio Brazilience 
Youtube: @correio.braziliense



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