IBIPETUM: ORIGEM E EVOLUÇÃO DA TERRA DO FUMO

RESIDENCIA ONDE MOROU A ULTIMA ESCRAVA QUE SE TEM NOTICIA NO MUNICÍPIO DE IPUPIARA 


  Ibipetum: origem e evolução da Terra do Fumo

                    O homem ou mulher nascido e criado nas entranhas da Chapada Diamantina carrega dentro de si um sentimento místico de autoctonia, de amor inato pela Terra natal, compartilhado entre pessoas que se identificam no mundo como filhos da mesma terra. E se a deixa por razões de força maior, o estar longe agora o faz curtir saudade; os pensamentos vêm e vão carregados de lembranças da Terra em que foi iniciado na vida, do chão que lhe é familiar, sempre animado em busca do divino, preocupado em descobrir o caminho das pedras, evocando reminiscências de lugares transcendentais, onde o sol nasce, a onça bebe água, o cão amalha, o vento faz a curva ... sem perder tempo querendo entender o sentido da vida, se é que tal coisa exista.

                   As comunidades de Ipupiara e Ibipetum foram formadas e se desenvolveram ao longo de gerações com gente carregada de sentimentos, sim, gente que sente o pulsar da vida, que dá valor aos frutos da natureza, aos bens da cultura, ao gozo do lazer.

                   Durante décadas Ipupiara e Ibipetum pertenceram ao município de Brotas.
Pela divisão administrativa do Brasil realizada em 1933, a composição do “município de Brotas” era formada por quatro distritos: Sede, Chapada Velha, Jordão e Barra do Mendes. Cinco anos depois, pelo Decreto-lei estadual nº 10.724/1938, “a vila de Brotas” recebeu foro de município, formado por Brotas, Barra do Mendes, Jordão, Morpará e São Francisco (Saudável).

                   Novamente, cinco anos depois, pelo Decreto-lei estadual nº 141/1943, o topônimo volta a denominar-se Brotas de Macaúbas, e o município passou a ser composto, de acordo com o Decreto estadual nº 12.978/1944, dos distritos de Brotas de Macaúbas (ex-Brotas), Barra do Mendes, Ipupiara (ex-Jordão), Morpará e Saudável.

                   Nove anos depois, pela Lei estadual nº 628/1953, o município passou a ser composto por oito distritos: Brotas de Macaúbas (sede), Barra do Mendes, Ibipetum, Ipupiara, Morpará, Minas do Espírito Santo, Ouricuri do Ouro e Saudável (FERREIRA, 1958).

                   Com o passar dos anos, o imenso território de Brotas de Macaúbas sofreu vários desmembramentos para formar outros municípios: Monte Alto (1917), Oliveira dos Brejinhos (1933), Barra do Mendes (1958), Ipupiara (1958), e Morpará (1962).

                   As disputas de poder entre os caudilhos Horácio de Matos e Militão Rodrigues Coelho marcaram a história de Brotas de Macaúbas na primeira metade do Século XX.

                   Horácio de Matos nasceu em 18 de março de 1881 na Chapada Velha, lugarejo que ganhou projeção em virtude da extração mineral, haurindo relações econômicas e sociais com outras povoações do Estado que, igualmente, se desenvolviam por causa da extração de diamantes, com destaque para Mucugê e Lençóis. Do comércio às ingerências da política foi um pulo. Eram os primeiros anos da República.
Segundo Edízio Mendonça (2006), Militão Coelho se tornou o chefe político mais poderoso do sertão, com o apoio do chefe de polícia José Álvaro Cova, que ocupou a Secretaria de Segurança Pública nos governos de José Joaquim Seabra (1912-1916) e de Antônio Muniz (1916-1920). Militão Coelho foi presidente do Diretório Municipal do Partido Republicano Federal (PRF) e, depois, presidente do Diretório Municipal do Partido Republicano Democrático (PRD), de 1914 a 1919. O político barramendense foi nomeado intendente de Brotas de Macaúbas em 3/1/1915, governando até 22/2/1916. Voltou em 14 de março e ficou até 18 de agosto.

                   Em outubro de 1914, o delegado regional Otaviano Saback, agindo por delegação do Governador Antonio Muniz Ferrão de Aragão, nomeou o coronel Militão Coelho para o cargo de intendente, a contragosto dos brotenses da sede, que desejavam ver nomeado o Sr. Joviniano dos Santos Rosa (major Vena) ou o Sr. João Arcanjo Ribeiro. Já em 1916, enquanto Militão se encontrava em Salvador, o coronel Domingos Pereira, substituto dele, mandou prender o major Vena, fato que deu início a uma sangrenta contenda entre seguidores do coronel barramendense e partidários do coronel Horácio de Matos (MARTINS, 2011).

                   Nestor Coelho, o filho de Militão, também se tornaria líder político no Município de Brotas de Macaúbas. A partir de 1938, conseguiu se eleger para vereador e prefeito e, em 1946, elegeu-se para deputado estadual (MARTINS, 2011).

                   Dois ipupiarenses chegaram a ser prefeito do imenso Município de Brotas de Macaúbas, com seus 7000 km. É certo que o foram, não por meio de eleição, mas de nomeação, durante a ditadura de Getúlio Vargas, quando o Estado da Bahia andou sob intervenção federal.

                   Artur Ribeiro dos Santos foi nomeado prefeito de Brotas de Macaúbas em 1945. Foi eleito vereador pela União Democrática Nacional – UDN em 1946, 1951, 1955 e 1959 (MARTINS, 2011).

                   Adão Francisco Martins, por sua vez, foi nomeado em 1946, pelo interventor federal na Bahia, o general Cândido Caldas; seu mandato foi de 1946 até abril de 1947, quando cessou a intervenção na Bahia. Finda a intervenção, Otávio Mangabeira elegeu-se governador, então foram restabelecidas as eleições municipais (MARTINS, 2004).

GAMELEIRA → IBIPETUM

                   O povoado de Gameleira formou-se com o ajuntamento de garimpeiros que rumaram para aquelas terras em busca da extração de cristais e de pedras preciosas. Então se estabeleceram em diminutas propriedades, cultivando a terra e explorando garimpos, próximo a uma nascente d’água que desaguava numa lagoa. O nome advém da grande floresta de gameleiras que lá e então existia.

                   As frondosas gameleiras produziam um mundo de sombras aconchegantes, onde tropeiros viajantes, partindo de terras distantes com burros carregados de artigos de comércio: rapadura, couro de boi, bruacas, cangalhas, ferragens etc., faziam parada, amarravam os animais, descansavam, pernoitavam, vendiam e trocavam o que tinham por produtos da terra, tais como feijão de corda, farinha de mandioca, fumo de rolo, ouro, etc., e então seguiam viagem pelo sertão adentro.

                   Joaquim Francisco da Silva, “Quinca Rico”, um dos fundadores do Arraial da Gameleira, nasceu em 1858, muito pobre, mas trabalhou duro, fez fortuna, adquiriu propriedades, construiu uma casa de altíssimo valor: um conto de réis.  Aliás, merece registrar que esta casa

foi a residência da última escrava sobrevivente da gameleira que se tem notícia. Esse “investimento” realizado por “Quinca Rico” causou admiração a muita gente da redondeza, a exemplo do Coronel João Arcanjo Ribeiro, que viajou de Brotas para ver com os próprios olhos a famosa obra da qual tanto lhe falavam: a residência do amigo que diziam ter até uma Capela construída ao lado dela.
igreja menino Deus

                   “Quinca Rico” havia comprado uma escrava de nome Maria. Os moradores mais idosos de Ibipetum gostavam de contar um fato curioso que se passou entre o velho rico e a pobre escrava. Dizem que ele pegou uma nota “capa de cangalha”, cobiçadíssima na época, pois era de elevadíssimo valor, e mostrando a nota à escrava Maria, “Quinca Rico” fez-lhe o seguinte desafio: - Se você acertar o valor desta nota eu lhe dou a minha roça de maniçoba. Pois não é que a dita cuja acertou! E para felicidade lá dela o amo honrou o compromisso de aposta: imitiu-a na posse da roça de maniçoba. Dizem que João Arcanjo Ribeiro pediu conselho a “Quinca Rico”, ali por volta de 1888, sobre a conveniência de comprar escravo. O velho aconselhou não comprar, porque “a alforria estava perto de chegar” (notícias sobre abolição da escravatura já ecoavam também naqueles arraiais). Assim, convencido pelo amigo gameleirense, o líder brotense desistiu de fazer tal negócio.

João Arcanjo Ribeiro

                   “Quinca Rico” e João Arcanjo Ribeiro construíram amizade sólida; a estima recíproca transmitira-se aos descendentes. Filho do líder brotense, Ismael Arcanjo Ribeiro fez as vezes de dentista no Arraial de Gameleira, atual Ibipetum. Sim, senhor! Desanimado, porém, com a dita profissão, o fidalgo voltou a estudar, partiu para a grande metrópole São Paulo, formou-se em Direito, e mudou de vida: galgou o cargo de Juiz de Direito, retornou à Terra natal, e eis que se tornou o homem da lei em Brotas de Macaúbas. Nessa escalada, enveredou pelos meandros da política, intentou ser deputado estadual pelo PSD, no pleito de 1954, porém, seu projeto malogrou.

                   “Quinca Rico” tinha patente de capitão, integrava família grande, formada de muitos irmãos. José Francisco da Silva (Zeca) seu irmão viajou da Gameleira até Salvador montado no lombo de um cavalo; foi o primeiro a conseguir tamanha façanha. Outro irmão seu afamado foi Albuíno Francisco da Silva, “Major Buíno”. O homem rico da Gameleira faleceu em 1940; jaz no cemiteriozinho lá existente rodeado de jurema preta.
Na antiga Gameleira, atual Ibipetum, ruas iam se formando, o Povoado crescia. Um barracão de madeira erigiu-se na Rua Grande, onde funcionava a feira livre. Grandes casarões de estilo colonial e barroco, com suas portas e janelas altas, fachadas trabalhadas, amplas salas e varandas, eis que são edificados e se tornam residências de Antônio Francisco, Aristides Pereira de Novais, Aristides Silva, André Andrade, Francisco Silva, Miguel Martins dos Santos, Luciano Pereira de Novais, Manuel Novais, Honorato Silva, Noel Ribeiro.

                   A Rua do Alto (Rua de Cima) forma-se com a construção de várias casas: a de Memézio, em 1888, a Capela do Menino Deus, e as residências de outros moradores. A Rua Treze de Maio, onde existia uma Delegacia de Polícia. Nesta os presos ficavam amarrados com bolas de ferro nas pernas, o espírito do tempo ainda era marcado pelo regime da escravidão. Esse nome Treze de Maio é uma referência à “Lei Áurea”, que foi assinada em 13 de maio de 1888, abolindo a escravatura. A Rua do Bate-Bico (Rua da Manguba), atual Avenida 7 de Setembro. A Rua do Limão, atual Rua Dr. Manoel Novais. A Rua Nova, atual Rua José Oliveira. A Rua do Carro Velho. A Travessa da Fábrica, atual Rua Nunes Capelão. A Travessa do Mercado, atual Rua Treze de Junho. A Rua Caminho do Cruzeiro, atual Avenida Cruzeiro do Sul, entre outras. A Igreja Matriz de Santo Antônio, padroeiro local, foi construída na área central da Avenida Santo Antônio, em 1930. A Igreja do Menino Deus, por sua vez, foi construída depois, na Rua do Alto (Rua de Cima), e reformada em 2003, quando a prefeitura construiu a Praça da Paz no seu entorno e erigiu uma réplica do Cristo Redentor.

                   A Gameleira ganhou status de distrito com o nome de Ibipetum pela Lei estadual 628, de 1953. Em 1959 teve início o serviço postal: Agência de Correios e Telégrafos, a cargo da funcionária Onília Pereira Silva, operando em linha telegráfica com Barra do Rio Grande, Morpará, Brotas de Macaúbas, Ipupiara e Barra do Mendes.

                   O comércio desenvolveu-se sob o Mercado Municipal, construído em 1952, na junção das ruas Treze de Junho, Rua do Comércio, Largo do Mercado e Treze de Maio. Obra do prefeito Gaudêncio Oliveira, de Brotas de Macaúbas. No mercado realizava-se feira livre aos domingos, como até hoje acontece.

Fonte:

IPUPIARA & IBIPETUM: história de lutas na chapada diamantina. SANTOS, Arides Leite.

Postagens relacionadas

vila de ibipetum 5569154859268051782

Postar um comentário Default Comments

emo-but-icon

Diamantina FM

Visualizações de página

Parceiros











Mais acessadas

Seguidores

item